segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Quatro Soldados



Quatro Soldados
Autor e capa: Samir Machado de Machado
Editora: Não Editora
Fontes: Isidora e Stag Sans
Acabamento: alto-relevo

(clique para ampliar)

Na condição de autor, designer e membro do conselho editorial da editora, fiquei na rara posição de ser o responsável pela capa do meu próprio livro. Só não fui à gráfica apertar o botão da impressora. Por um lado, um problema: como outros designers talvez concordem, não existe um cliente pior do que a si próprio. Mas vamos lá.

Detalhes da capa e contracapa.

Quatro Soldados é, em termos gerais, uma aventura histórica situada no Brasil do século XVIII, mais especificamente, a zona nebulosa de fronteira entre as colônias portuguesas e espanholas que compreende da cidade de Sacramento, no que hoje é o Uruguai, até a vila de Laguna, em Santa Catarina. Envolve, como diz o título, quatro soldados do regimento de dragões de Rio Pardo, durante os últimos anos da Guerra Guaranítica, um mundo abalado também pelo Iluminismo, a descoberta da eletricidade e o Terremoto de Lisboa.


O que começa como uma história de aventuras, ao longo do livro se torna uma aventura sobre leitores - e a relação dos personagens com a literatura é um dos elementos-chave do livro. Na capa, buscou-se isso através da desconstrução do título, embaralhando-se as letras, e fazendo com que a ilustração dos soldados (detalhe de uma gravura de Hubert-François Gravelot para a edição francesa de 1750 de História de Tom Jones, de Henry Fielding) "salte" por sobre as letras, efeito reforçado de leve com a adição de relevo.


Algumas das muitas versões rejeitadas.

No meio do processo, e de múltiplas opções, chegou-se a testar duas versões de textura, uma de tecido (a que foi aprovada), outra de textura de papel antigo (numa situação ideal - ou seja, com o orçamento ideal - esse livro teria saído numa versão em capa dura com tecido de fato).

O miolo em si é bastante formal, exceto por um falso frontispício, parte da narrativa, que simula o frontispício de um livro português setecentista, e pela adição de cabeçalhos na abertura de cada uma das quatro partes.

As gravuras foram retiradas das aberturas de capítulos de Historia Naturalis Brasiliae, de Guilherme Piso, editado em1648



A tipografia
Talvez o detalhe mais pertinente do projeto gráfico do miolo seja a escolha tipográfica. Assim como o livro se propõe à uma reconstrução histórica, também a fonte é, ela própria, uma reconstrução histórica.
Conjunto final de caracteres de Isidora Regular.

Desenvolvida pela arquiteta Laura Benseñor Lotufo como trabalho final de conclusão de curso na FAU-USP em 2010, sob supervisão da Professora Dra. Priscila Lenas Faria, a fonte Isidora é uma reconstrução da tipografia utilizada no primeiro documento impresso no território nacional, A Relação da entrada que fez o Excelentíssimo e Reverendíssimo Bispo D. Fr. Antonio do Desterro Malheyro, Bispo do Rio de Janeiro […] (o título é enorme).
Comparação de caracteres em três etapas de trabalho: digitalização do original, desenho à mão e vetorização.

Impresso em 1747 por Isidoro da Fonseca, numa época em que Portugal proibia a instalação de tipografias no Brasil, a família de fontes é resultado de um resgate tipográfico no qual procurou se traduzir a irreverência e o caráter de improviso do documento original de Isidoro.

Levantamento de caracteres na Relação da entrada [...], incluindo-se caracteres não mais utilizadas na lingua portuguesa, como o S longo, que provavelmente está sendo usado novamente num livro de ficção pela primeira vez em uns cento e cinquenta anos, no mínimo.
Segundo a própria Laura Lotuffo, em entrevista para o site do Brasiliana, "o caráter aparentemente improvisado e pouco refinado do impresso, despertaram um interesse investigativo sobre a produção da obra e a história do próprio Isidoro da Fonseca".

"Esse improviso é visível ao longo de todo o livro. No entanto, alguns aspectos tipográficos se destacam; particularmente, o ‘til’ sobre o ‘O’ de ‘RELAÇAÕ’ que é, na realidade, um ‘J’ em corpo menor girado em 90 graus, e o cedilha deslocado abaixo de ‘C’, que se assemelha a um ‘s’ com a parte superior cortada. Esses elementos improvisados, assim como o aspecto geral do material impresso, traduzem ‘tipograficamente’ as circunstâncias nas quais foi impresso, de maneira clandestina, às pressas, numa oficina recém aberta e, provavelmente, cujo funcionamento ainda ocorria com um certo grau de improviso. Espero que o desenvolvimento da família ‘Isidora’, – o processo e não só o resultado final – tenha contribuído no sentido de resgatar esse ‘espírito’ que existiu no passado editorial brasileiro".

Quatro Soldados será lançado no próximo dia 15 de agosto, nas livrarias (e pelo site da editora).

3 comentários:

Line Schneider disse...

Samir, estou muito curiosa com o livro desde que comecei a ver os posts no facebook da Não! A versão final da capa foi a que mais gostei, mas a terceira das não utilizadas também teria um lugar cativo na minha estante :) E estou realmente maravilhada com a reconstrução tipográfica que foi feita! Parabéns por todos os detalhes desse trabalho lindo!

Filipe Mafagafo disse...

Caramba, adorei o design do livro! Gosto muito de ilustração por métodos de gravura e todo oe stilo antigo utilizado, definitivamente vou procurar o livro.

Ótimo trabalho!

Samir Machado disse...

Line: Fico feliz que tenha gostado. O mérito da reconstrução tipográfica é todo da Laura Lotuffo.

Filipe: obrigado pelos elogios. Espero que o texto agrade.

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