quinta-feira, 5 de julho de 2012

Micrômegas

Design por Diogo Droschi


Micrômegas - Uma história filosófica
Autor: Voltaire
Projeto Gráfico e ilustrações: Diogo Droschi
Editora: Autêntica



Inspirado nas Viagens de Gulliver (1726), de Jonathan Swift, Micrômegas, escrito em 1752, é considerado um dos primeiros textos de ficção científica e também um dos primeiros a veicular a possibilidade de sermos visitados por habitantes de outros planetas.
Sobre essa edição lançada pela editora Autêntica, é uma pena que a tela do computador não reproduza o belo tom metalizado do azul da capa, e como um todo, reforça a importância do design gráfico na valorização do livro enquanto objeto físico. Eu já havia lido o Micrômegas de Voltaire no começo do ano, numa edição de bolso da Hedra, mas foi impossível resistir ao apelo do projeto gráfico criado por Diogo Drosch. É aquele tipo de livro que um bibliófilo se sente impelido a ter na prateleira. O que segue abaixo é uma rápida entrevista feita com o designer, sobre o processo criativo do design do livro (e como sempre, clique nas imagens para ampliá-las)..


Como você chegou no conceito da capa e projeto gráfico?
Neste livro tive o privilégio de trabalhar tanto com o projeto gráfico quanto com as ilustrações, mas o design de um livro é sempre o resultado de um trabalho em equipe. A idéia é associar em um projeto os pontos de vista do designer, do editor e do autor (quando ele está vivo, claro!). No caso do Micrômegas não foi muito diferente, o conceito tomou corpo a partir das muitas conversas e da troca de ideias que tive com a Sonia Junqueira, que é a editora de infantojuvenis da Autêntica.


Nossas escolhas foram conduzidas basicamente por elementos já presentes na narrativa, portanto, para falar sobre o conceito, preciso falar rapidamente sobre o texto. Escrito originalmente em 1752, Micrômegas é o personagem que dá nome ao livro. Habitante de um planeta que gira ao redor da estrela Sírius, é um gigante de proporção descomunal, questionador e ávido por conhecimento, que viaja através dos planetas para saciar sua curiosidade, até chegar à Terra onde se depara com seres quase microscópicos: os seres humanos. Através dos questionamentos filosóficos e das investigações científicas desse personagem, em um dos primeiros textos de ficção científica de que se tem notícia, Voltaire questiona os valores da sociedade em que viveu.


O texto explora a linguagem matemática, em diálogos repletos de números, escalas, proporções, unidades de medida, de forma extremamente marcante e também irônica. A idéia é explicitar o contraste entre Micrômegas e os terráqueos, bem como analisar as situações humanas aos olhos desse gigante. No próprio nome do personagem já está subentendida, de certa forma, essa ironia. Foi exatamente a partir disso que exploramos as possibilidades de construir um livro clássico, com uma leve roupagem de ficção científica, onde pudéssemos brincar com as noções de proporção, criando sempre algum tipo de ruído ou contraste.


Além de trabalhar com dois tamanhos de corpo tipográfico para o texto corrido, e dois grids, por exemplo, o projeto também deu relevância a elementos que na maioria das vezes ficam em segundo plano nos projetos gráficos: numeração de notas e números de páginas.



Como foi a produção das ilustrações?

Trabalhei basicamente com colagem digital, tendo como base antigas gravuras em metal. Queria que as ilustrações tivessem um ar contemporâneo, mas que também carregassem alguma referência histórica. Como Micrômegas é uma obra marcantemente iluminista, comecei a buscar gravuras que tivessem esse tom racional, de valor enciclopédico e descritivo, e não necessariamente estético. A partir delas, comecei a construir novas configurações, tentando estabelecer relações menos óbvias, regidas basicamente por essa brincadeira com os contrastes e proporções que disse anteriormente.

A idéia era explorar o que de onírico havia no texto, criando diálogos inusitados e relações abstratas e subjetivas entre formas matemáticas, representações cartesianas do sistema solar, representações do corpo humano e uma série de outros seres e objetos.

O grid utilizado por Diogo, com bastante espaço para o texto respirar, e diferenciando a página de abertura de cada capítulo.


O que você acredita que faz de uma capa de livro uma boa capa de livro?

Um projeto gráfico bem executado, com uma solução impactante e que surpreenda é um bom indício, mas é importante não generalizar, não é só isso que determina se uma capa é boa ou não.



O número de variáveis em jogo na elaboração do projeto gráfico de capa pode ser tão infinito quanto o universo do livro. Entre outros detalhes, é sempre necessário entender qual o desejo do autor e do editor, qual será o ponto de venda, sob qual circunstância esse livro ficará exposto, de que maneira ele será lido, e o mais importante, a qual público ele se destina, afinal, é para esse leitor específico que a capa precisa comunicar algo.


Nesse caso, o papel do designer pode ser visto como o de um agente moderador em um diálogo de muitas vozes. Se, durante o processo, ele conseguir concatenar e traduzir visualmente esses detalhes e pontos de vista, certamente teremos uma boa solução de capa.


Diogo Droschi nasceu em 1983, na cidade de Belo Horizonte, MG, onde ainda vive. É formado em Design Gráfico pela UEMG e em Artes Gráficas pela Escola de Belas Artes da UFMG. Pela Autêntica Editora, ilustrou os livros Histórias daqui e d’acolá, Vagalovnis e Desenrolando a língua. No twitter: @droschi

3 comentários:

Line Schneider disse...

Que trabalho gráfico maravilhoso! Obrigada, como sempre, pelas entrevistas.

MValéria Rezende disse...

Bravo, Diogo! Vou continuar e brigar, se for preciso, pra traduzir outros "micrômegas" pra Autêntica só pra ter de novo a deliciosa surpresa/delícia de ver o que você faz com o texto. Esse livro, junto com os outros meus livros que você ilustrou, moram na minha cabeceira, e todo dia eu pego, que nem criança, pra "ver as figuras" antes de dormir! Beijo. MValéria

Moema cavalcanti disse...

É com enorme entusiasmo que dou as boas vindas aos jovens designers que dedicam seus talentos ao livro.
Cada vez mais encontro gente nova se interessando pelo Design Editorial. A Autêntica, abrindo espaço para os jovens (e não esquecendo dos 'velhos'), tem sabido dar o devido valor a essa profissão.
Parabéns, Diogo!
Abraços, Sonia Junqueira, Maria Valéria, Rejane Dias.

Moema Cavalcanti
Designer Gráfica Editorial

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